Sobre Filosofia Prática de Marcia Tiburi
TIBURI, Marcia. Filosofia prática. 1.ed. Rio de Janeiro: Record, 2014.
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Um livro sempre permite uma descoberta, um lampejo, um ponto de convergência ou divergência, um achado em meio a reflexões. Tiburi dedica a obra "a todos aqueles que, de algum modo, conhecem o sentimento de inadequação." Tal sentimento se fará presente implícito ou explicitamente ao longo de sua teoria filosófica. Inadequado é aquele "que conhece o sentido do desconforto diante das coisas." (p.142). Esse é o fio condutor que movimenta a dança de sua filosofia, para usar sua poesia.
As reflexões são abordadas tendo como pano de fundo a ética. Trata-se de "um pedido de conversa" que aspira tocar o seu leitor. Para tanto, a linguagem técnica não pode contribuir para exclusão daqueles que não a dominam. Por isso, "por que não falar a língua de todo mundo?" (Roland Barthes). Eis o desafio da autora.
Mas a ética como objeto "não cabe no próprio livro", pois "está sempre para além do texto". E a análise ou ensino de uma teoria ética "não garante que alguém se torne ético". Por outro lado, o falar de ética pode provocar o efeito bumerangue: "a palavra ética convoca a ser ético aquele que fala".
Se alguém procura uma vantagem para ser ético, jamais poderá ser ético, uma vez que "a ética verdadeira não providencia vantagem alguma".
Ainda que sejamos únicos, diferentes, "somos muito mais iguais do que gostaríamos [...], seduzidos por toda forma de rebanho." Ou seja, "somos o que somos sempre com os outros." Desse modo, o mundo como ele é também é resultado de minha obra, sou também responsável.
É possível ver poesia no cotidiano? "O que chamo de poesia refere-se a um certo jeito de fazer contato com as coisas do mundo e poder dizer sobre elas a si mesmo, aos outros."
É possível falar a língua do povo e ao mesmo tempo filosafar? O desafio da autora "é falar a língua de todo mundo e, ao mesmo tempo, falar essa língua filosoficamente".
É preciso resistir contra a redução das pessoas "a meros consumidores de coisas e imagens", resistir a "religiões mercadológicas e rituais de consumo", resistir por meio de reflexão crítica.
"A ética é a experiência da política muito de perto, na miudeza de cada gesto do dia a dia".
Sobre a importância do diálogo para a ética. "Não há ética sem esse curioso elo questionador ao qual damos o nome de diálogo. [...] Fora do diálogo só existe falsa política, pseudopolítica".
Como me torno quem sou?
De algo ninguém escapa, "cada um terá de haver-se consigo mesmo", terá de responsabilizar-se pelo que faz ou deixa de fazer. "A ética não está dada, ela é o que se busca".
Sobre a tese da banalidade do mal, Tiburi cita Hannah Arendt a respeito de suas obras: Eichmann em Jerusalém, A condição humana, Origens do totalitarismo.
O vazio de pensamento representa a ausência de pensamento sobre ética, a falta de autonomia na ação, a ausência de responsabilidade sobre seus atos, uma vez que age apenas cumprindo o determinado, obedecendo a hierarquia, sem nenhuma visão crítica. O vazio de pensamento pode levar, assim, à banalidade do mal. Ou seja, cada um está potencialmente sujeito à banalidade do mal, basta agir cegamente, e essa é a apavorante condição humana. Basta verificar como um nazista tratava o judeu, o cigano, o negro, numa espécie de antirrelação. Ou como o tratamento dado aos nativos do Brasil, aos pobres, povos marcados como excluídos."A democracia [desse modo] é uma mera fachada. A fachada da banalização em nome de um totalitarismo disfarçado de oportunidade para todos".
"O simples fato da erudição não garante uma postura ética" (pág, 53).
Sobre a produção social da ignorância.
"A construção histórica da ignorância é um fato ao qual nos acostumamos produzindo a consciência falsa de que as coisas não podem ser de outro modo." A onda de um eruditismo vazio, o falar por clichês, os meios de comunicação como produtores da verdade e da realidade, a ausência de um projeto educacional, tudo contribui para a produção social da ignorância, mas não por acaso. Não interessa fomentar "o pensamento reflexivo que se dá em conjunto com ações reflexivas"
"A lógica das vantagens é inimiga da ética" (pág. 66).
Sobre ódio barato e ressentimento.
É curioso que as chamadas "pessoas de bem" sejam portadoras de um tal ódio barato. Não raro, aqueles que criticam os motociclistas montados em seu instrumento de trabalho, em geral, se servem deles. "Não é diferente o ódio crescente aos ciclistas por parte de uma população de 'bons cidadãos' que olham o mundo no limite das carcaças de seus carros".
Humilhação
"Toda autoridade implica humilhação, e nosso desejo de democracia implica sempre algum tipo de confronto".
Mas não se engane, "a humilhação implica sempre um afeto. [...] Humilhado é aquele que não pode responder com a mesma violência que sofreu". Como diria Spinoza, "os governantes e sacerdotes precisam da tristeza de seus súditos".
Experiência
Sobre viver anestesiado. Sobre ser experiente, no sentido de dominar a técnica, mas não ter experiência, experiência que transcende, que busca um novo olhar sobre o mundo, no sentido de melhorá-lo. A pobreza da experiência implica no desinteresse em novas experiências. Nesse sentido, "agimos como soldados que vão á guerra e voltam mudos, como quando não somos capazes de compartilhar narrativas porque não sabemos mais conversar uns com os outros".
Honestidade
"O que é roubar um banco comparado a fundar um?". Brecht
Cultura da negligência
A respeito do analfabetismo político. "A democracia está interrompida pelo simples fato de que, sendo analfabetos em diversas dimensões, não podemos - não sabemos - participar dela".
O que estamos fazendo uns com os outros?
Condenados "à irreflexão que nada muda", uma vez que pensar "filosoficamente não é algo que se valorize".
O vazio da ação
"A ação cega seria a ação na qual jamais se coloca a questão do pensar. Cega, está sempre certa de si". Diferente da práxis, que consiste na prática da lucidez.
"Na dança o corpo pensa. Na filosofia o pensamento dança".
Como uma religião, "aquele que gasta sente-se praticando um ritual de libertação".
"O turismo é o estranho consumo do tempo".
Ética ou a luta contra o vazio da ação
É possível uma ação livre em uma sociedade controlada? Controlada pela publicidade, pela burocracia, "pelos mecanismos que compõem a microfísica do poder".
A autonomia, a emancipação e a busca da liberdade são potências a animar a luta contra a escravidão.
"Ética seria a ação carregada de pensamento, uma ação não esvaziada", já que uma ação pensada conduz à alegria criativa e foge da simples repetição - "a liberdade nunca é pura repetição".
O fato de pensar, refletir e confrontar o próprio ato é adentrar no campo da ética. Os atos do cotidiano de modo geral são irrefletidos, não são metapensados, ou seja, não submetidos à reflexão.
Nesse sentido, "a ética é, assim, o contrário do vazio da ação que experimentamos no dia a dia. Assim como a filosofia é o contrário do vazio do pensamento. Filosofia prática seria o pensamento ativo, a ação não apenas pensada, mas metapensada".
Sobre discurso, diálogo e silêncio
"O discurso, podemos dizer, é um tipo de relação em que o outro é negado. O outro é subsumido, devorado pelo discurso. Já no diálogo ele é sobrevalorizado, esperado, acolhido. Podemos dizer que o diálogo é o extremo da relação". Mas o que se vê é a tagarelice como o modo habitual de expressão.
O silêncio permite a linguagem se estabelecer, e representa uma forma de relação, por isso não é a antirrelação. Antes, antirrelação é o discurso, uma vez que ignora o outro.
Antirrelação e diálogo
"As relações competitivas, por exemplo, são antirrelações, enquanto as colaborativas seriam relações em um sentido mais estrito e essencial" (pág. 117).
Não basta a explicação, é preciso pensar para poder compreender. Assim, "explicar e compreender são atos muitos diferentes. A explicação tem algo de estático. [Diria, como tem algo de estático o discurso quando comparado ao diálogo]. A compreensão, no entanto, é móvel, se modifica diante das coisas que encontra - para compreendê-las - enquanto, ao mesmo tempo, se molda nelas". Ou seja, o movimento é dialético, conforme Heráclito e Hegel: tudo se encontra em fluxo.Mas, para Parmênides, o movimento é uma ilusão, a essência nunca muda, acrescentaria.
A antirrelação se vê também na linguagem da tagarelice, "no falar demais sem ter nada a dizer", no falar apenas por falar: esse seria o vazio do pensamento que leva ao vazio da linguagem. Um paradoxo, já que estamos na era da comunicação total, conexão total.
"Quanto mais robôs nos tornamos, menos poetas tendemos a ser" (pág. 123). Ou seja, a comunicação total tende a eliminar a comunicação poética.
A relação pressupõe o outro, por isso "somos seres de mediação, vivendo na medialidade". Mas muitas vezes "somos vítimas da violência dos discursos enquanto falas prontas".
Como remédio à antirrelação e ao vazio da linguagem, "a filosofia atua contra o vazio da linguagem, e a filosofia prática, contra o vazio da ação, que é uma das formas do vazio da linguagem".
Sobre conversar e dialogar.
"conversar não é o mesmo que dialogar, pois o diálogo implica que o outro tenha sido realmente reconhecido [...]".
"O filósofo não seria aquele que fala do ponto de vista da verdade, mas apenas de seu próprio ponto de vista, limitado por sua própria história, enquanto ela é coletiva e é também história pessoal".
Filosofar, portanto, é combater o vazio da linguagem, uma vez que permite a expansão da consciência, por isso muita vezes a filosofia "é controlada em contextos ditatoriais e de poder, como no capitalismo [...]". (Possível alusão ao que está por trás da chamada Escola sem partidos?).
Relembrando Platão e Sócrates, para quem o diálogo era o cerne da prática filosófica, como o método da maiêutica no sentido de parir ideias.
Celebridades - a venda da imagem
"Ninguém escapa da lógica da vida transformada em concurso de beleza".
"O ser é substituído por aparecer": o narcisismo exacerbado, a venda da imagem, a publicidade em todas as esferas, o consumo como modo de ser. "O capital precisa alienar a política para vencer".
Inadequado
"A razão é um afeto, como diria Nietzsche, o mais forte dos afetos".
(Alteridade: o mundo individual só é possível a partir do contraste com o mundo do outro. É colocar-se no lugar do outro.Na medida em que culturas diferentes praticam a alteridade, é possível estabelecer o diálogo, sem que uma cultura se sobreponha à outra. Alteridade seria então uma vontade de entendimento, a busca do diálogo, a busca de uma relação pacífica).
"Inadequado é aquele que se sente sufocar. Para ele o mundo é feito de paredes que se aproximam lentamente na direção de um corpo a ser esmagado". Nesse sentido, "o pânico é um extremo de inadequação".
"O inadequado é, em geral, um pensador, [...] já que conhece o sentido do desconforto diante das coisas".
Vergonha
"Sente vergonha aquele que ainda deseja ser sincero", dado que na sociedade do espetáculo as pessoas meio que desistiram da sinceridade.
"O sentimento de vergonha é sinal de que algo ainda importa".
Por outro lado, "o adequado pode, no entanto, estar neste mundo como um robô, não sentindo mais nada. Inadequado é quem não consegue virar robô, logo se questiona, sofre, e ressente. Em geral, sente vergonha. E, neste caso, prefere ficar sozinho".
Política da solidão
"Os sentimentos humanos são nebulosos e confusos, mas não se expressam senão por meio de atos desesperados que falam por si mesmos".
"Paradoxo de Bacamarte: o anormal é normal, o normal é anormal".
Desse modo, "viver em comunidade não faz sentido para todo mundo".
Anestesia
"Podemos perguntar como alguém se torna anestesiado? [...] O anestesiado não consegue sentir-se adequado ou inadequado", uma vez que o que sente é o vazio da emoção.
Ostentação
"Ostentação é o principal tipo de ação espetacular. É o próprio cerne da espetaculização." É o tempo do culto religioso às marcas.
"Mais do que uma lei, o consumo é uma crença que atinge todas as classes sociais para devorar cada um de seus adeptos". Desde a fascinação por roupas, carros e toda espécie de coisas.
Como resistir à servidão voluntária? "A saída é a arte, a poesia, a negação ativa contra o uso e o consumo de marcas. A saída é, certamente, a ética contra o espírito do capitalismo".
"O simples dizer 'não, obrigado', torna-se a verdade profanação cotidiana".
Mania de carrão, escravidão estética, morte da cidade
A marca e o tipo de carro faz parte do teatro social. "Diz-me com que carro andas e te direi que és".
"Inadequado é aquele que anda a pé".
"O poder do dinheiro age em detrimento da cidadania", uma vez que, sob ponto de vista da publicidade, "ser feliz é ostentar".
Inação
"Negar-se a fazer é a inação verdadeira contra a imposição da ação num mundo que hipervaloriza a prática vazia".
"A inação de não ver televisão, não ter carro, não comer carne, não andar com roupas da moda, a recusa de hábitos que configuram o quadro geral da ação falsa, 'da pseudoatividade', é a verdadeira ação".
"Na medida em que não agimos, podemos estar muitas vezes fazendo algo sumamente importante do ponto de vista ético". "[... renunciamos a fazer o que o sistema nos pede".
Ou seja, de acordo com Tiburi, de certa forma, a inação pode ser a verdadeira ação. E o caminho é se perguntar sobre o significado de cada ação: conformismo ou resistência.
3. Como viver junto?
"Como não podemos escolher com quem conviver, a convivência se torna muitas vezes uma questão de sobrevivência. Estamos de fato condenados uns aos outros".
No sentido de "condenados uns aos outros", Tiburi complementa que mesmo "na irrelação, quando rompo com o outro, quando o apago, mesmo assim ele permanece, ainda que na forma de algo absurdo, de algo que me escapa".
"A ética é constantemente tratada como teoria da ação", mas seu significado pode ser ampliado para o que Tiburi denomina de metateoria.
Ética como anacronismo
Sobre a ética e seu caráter intempestivo, anacrônico, extemporâneo.
"Ethos é a vida simplesmente vivida".
"Não podemos simplesmente conhecer o cotidiano, pois estamos dentro dele".
A miséria do dia a dia não é nada comparada com a exuberância da transcendência. Reflexões a partir de Nietzche.
Vida cotidiana como questão
Calcificar. "Aquilo que fica de fora da história": o cotidiano, a vida sem glamour.
Banalidade
Frase importante para meus estudos a respeito da linguagem:
"Toda palavra guarda alguma verdade histórica e é por isso que a etimologia pode nos ajudar a pensar".
Feminicídio ou o ódio ao outro como questão de gênero
"O poder total na mãos dos homens apenas porque são homens", a tal lógica do patriarcado.
"O ódio contra trevestis e homossexuais que faz parte do fascismo cotidiano é outro modo de realização da banalidade do mal ligada à questão de gênero".
Vida ornamental
A vida vivida sobre o prisma das aparências, da ostentação, é o que Tiburi define como vida ornamental.
"A sociedade da aparência demanda o que o mercado define como certo". Em outros termos, viver submetido à vida ornamental é considerar o deus mercado como a medida de todas as coisas. Aliás, sobre esse tema devo desenvolver algumas ideias em um futuro texto. O debate filosófico, além do imediatismo, visa abrir janelas para um mundo além do culto das aparências. Como diria Tiburi, esse debate precisa ser capaz de fazer surgir uma utopia ética, uma vez que já não há mais espaço para utopias.
A vida ornamental "é a vida reduzida à pura estética, à aparência da vida"
Continuando...
As reflexões são abordadas tendo como pano de fundo a ética. Trata-se de "um pedido de conversa" que aspira tocar o seu leitor. Para tanto, a linguagem técnica não pode contribuir para exclusão daqueles que não a dominam. Por isso, "por que não falar a língua de todo mundo?" (Roland Barthes). Eis o desafio da autora.
Mas a ética como objeto "não cabe no próprio livro", pois "está sempre para além do texto". E a análise ou ensino de uma teoria ética "não garante que alguém se torne ético". Por outro lado, o falar de ética pode provocar o efeito bumerangue: "a palavra ética convoca a ser ético aquele que fala".
Se alguém procura uma vantagem para ser ético, jamais poderá ser ético, uma vez que "a ética verdadeira não providencia vantagem alguma".
Ainda que sejamos únicos, diferentes, "somos muito mais iguais do que gostaríamos [...], seduzidos por toda forma de rebanho." Ou seja, "somos o que somos sempre com os outros." Desse modo, o mundo como ele é também é resultado de minha obra, sou também responsável.
É possível ver poesia no cotidiano? "O que chamo de poesia refere-se a um certo jeito de fazer contato com as coisas do mundo e poder dizer sobre elas a si mesmo, aos outros."
É possível falar a língua do povo e ao mesmo tempo filosafar? O desafio da autora "é falar a língua de todo mundo e, ao mesmo tempo, falar essa língua filosoficamente".
É preciso resistir contra a redução das pessoas "a meros consumidores de coisas e imagens", resistir a "religiões mercadológicas e rituais de consumo", resistir por meio de reflexão crítica.
"A ética é a experiência da política muito de perto, na miudeza de cada gesto do dia a dia".
Sobre a importância do diálogo para a ética. "Não há ética sem esse curioso elo questionador ao qual damos o nome de diálogo. [...] Fora do diálogo só existe falsa política, pseudopolítica".
Como me torno quem sou?
De algo ninguém escapa, "cada um terá de haver-se consigo mesmo", terá de responsabilizar-se pelo que faz ou deixa de fazer. "A ética não está dada, ela é o que se busca".
Sobre a tese da banalidade do mal, Tiburi cita Hannah Arendt a respeito de suas obras: Eichmann em Jerusalém, A condição humana, Origens do totalitarismo.
O vazio de pensamento representa a ausência de pensamento sobre ética, a falta de autonomia na ação, a ausência de responsabilidade sobre seus atos, uma vez que age apenas cumprindo o determinado, obedecendo a hierarquia, sem nenhuma visão crítica. O vazio de pensamento pode levar, assim, à banalidade do mal. Ou seja, cada um está potencialmente sujeito à banalidade do mal, basta agir cegamente, e essa é a apavorante condição humana. Basta verificar como um nazista tratava o judeu, o cigano, o negro, numa espécie de antirrelação. Ou como o tratamento dado aos nativos do Brasil, aos pobres, povos marcados como excluídos."A democracia [desse modo] é uma mera fachada. A fachada da banalização em nome de um totalitarismo disfarçado de oportunidade para todos".
"O simples fato da erudição não garante uma postura ética" (pág, 53).
Sobre a produção social da ignorância.
"A construção histórica da ignorância é um fato ao qual nos acostumamos produzindo a consciência falsa de que as coisas não podem ser de outro modo." A onda de um eruditismo vazio, o falar por clichês, os meios de comunicação como produtores da verdade e da realidade, a ausência de um projeto educacional, tudo contribui para a produção social da ignorância, mas não por acaso. Não interessa fomentar "o pensamento reflexivo que se dá em conjunto com ações reflexivas"
"A lógica das vantagens é inimiga da ética" (pág. 66).
Sobre ódio barato e ressentimento.
É curioso que as chamadas "pessoas de bem" sejam portadoras de um tal ódio barato. Não raro, aqueles que criticam os motociclistas montados em seu instrumento de trabalho, em geral, se servem deles. "Não é diferente o ódio crescente aos ciclistas por parte de uma população de 'bons cidadãos' que olham o mundo no limite das carcaças de seus carros".
Humilhação
"Toda autoridade implica humilhação, e nosso desejo de democracia implica sempre algum tipo de confronto".
Mas não se engane, "a humilhação implica sempre um afeto. [...] Humilhado é aquele que não pode responder com a mesma violência que sofreu". Como diria Spinoza, "os governantes e sacerdotes precisam da tristeza de seus súditos".
Experiência
Sobre viver anestesiado. Sobre ser experiente, no sentido de dominar a técnica, mas não ter experiência, experiência que transcende, que busca um novo olhar sobre o mundo, no sentido de melhorá-lo. A pobreza da experiência implica no desinteresse em novas experiências. Nesse sentido, "agimos como soldados que vão á guerra e voltam mudos, como quando não somos capazes de compartilhar narrativas porque não sabemos mais conversar uns com os outros".
Honestidade
"O que é roubar um banco comparado a fundar um?". Brecht
Cultura da negligência
A respeito do analfabetismo político. "A democracia está interrompida pelo simples fato de que, sendo analfabetos em diversas dimensões, não podemos - não sabemos - participar dela".
O que estamos fazendo uns com os outros?
Condenados "à irreflexão que nada muda", uma vez que pensar "filosoficamente não é algo que se valorize".
O vazio da ação
"A ação cega seria a ação na qual jamais se coloca a questão do pensar. Cega, está sempre certa de si". Diferente da práxis, que consiste na prática da lucidez.
"Na dança o corpo pensa. Na filosofia o pensamento dança".
Como uma religião, "aquele que gasta sente-se praticando um ritual de libertação".
"O turismo é o estranho consumo do tempo".
Ética ou a luta contra o vazio da ação
É possível uma ação livre em uma sociedade controlada? Controlada pela publicidade, pela burocracia, "pelos mecanismos que compõem a microfísica do poder".
A autonomia, a emancipação e a busca da liberdade são potências a animar a luta contra a escravidão.
"Ética seria a ação carregada de pensamento, uma ação não esvaziada", já que uma ação pensada conduz à alegria criativa e foge da simples repetição - "a liberdade nunca é pura repetição".
O fato de pensar, refletir e confrontar o próprio ato é adentrar no campo da ética. Os atos do cotidiano de modo geral são irrefletidos, não são metapensados, ou seja, não submetidos à reflexão.
Nesse sentido, "a ética é, assim, o contrário do vazio da ação que experimentamos no dia a dia. Assim como a filosofia é o contrário do vazio do pensamento. Filosofia prática seria o pensamento ativo, a ação não apenas pensada, mas metapensada".
Sobre discurso, diálogo e silêncio
"O discurso, podemos dizer, é um tipo de relação em que o outro é negado. O outro é subsumido, devorado pelo discurso. Já no diálogo ele é sobrevalorizado, esperado, acolhido. Podemos dizer que o diálogo é o extremo da relação". Mas o que se vê é a tagarelice como o modo habitual de expressão.
O silêncio permite a linguagem se estabelecer, e representa uma forma de relação, por isso não é a antirrelação. Antes, antirrelação é o discurso, uma vez que ignora o outro.
Antirrelação e diálogo
"As relações competitivas, por exemplo, são antirrelações, enquanto as colaborativas seriam relações em um sentido mais estrito e essencial" (pág. 117).
Não basta a explicação, é preciso pensar para poder compreender. Assim, "explicar e compreender são atos muitos diferentes. A explicação tem algo de estático. [Diria, como tem algo de estático o discurso quando comparado ao diálogo]. A compreensão, no entanto, é móvel, se modifica diante das coisas que encontra - para compreendê-las - enquanto, ao mesmo tempo, se molda nelas". Ou seja, o movimento é dialético, conforme Heráclito e Hegel: tudo se encontra em fluxo.Mas, para Parmênides, o movimento é uma ilusão, a essência nunca muda, acrescentaria.
A antirrelação se vê também na linguagem da tagarelice, "no falar demais sem ter nada a dizer", no falar apenas por falar: esse seria o vazio do pensamento que leva ao vazio da linguagem. Um paradoxo, já que estamos na era da comunicação total, conexão total.
"Quanto mais robôs nos tornamos, menos poetas tendemos a ser" (pág. 123). Ou seja, a comunicação total tende a eliminar a comunicação poética.
A relação pressupõe o outro, por isso "somos seres de mediação, vivendo na medialidade". Mas muitas vezes "somos vítimas da violência dos discursos enquanto falas prontas".
Como remédio à antirrelação e ao vazio da linguagem, "a filosofia atua contra o vazio da linguagem, e a filosofia prática, contra o vazio da ação, que é uma das formas do vazio da linguagem".
Sobre conversar e dialogar.
"conversar não é o mesmo que dialogar, pois o diálogo implica que o outro tenha sido realmente reconhecido [...]".
"O filósofo não seria aquele que fala do ponto de vista da verdade, mas apenas de seu próprio ponto de vista, limitado por sua própria história, enquanto ela é coletiva e é também história pessoal".
Filosofar, portanto, é combater o vazio da linguagem, uma vez que permite a expansão da consciência, por isso muita vezes a filosofia "é controlada em contextos ditatoriais e de poder, como no capitalismo [...]". (Possível alusão ao que está por trás da chamada Escola sem partidos?).
Relembrando Platão e Sócrates, para quem o diálogo era o cerne da prática filosófica, como o método da maiêutica no sentido de parir ideias.
Celebridades - a venda da imagem
"Ninguém escapa da lógica da vida transformada em concurso de beleza".
"O ser é substituído por aparecer": o narcisismo exacerbado, a venda da imagem, a publicidade em todas as esferas, o consumo como modo de ser. "O capital precisa alienar a política para vencer".
Inadequado
"A razão é um afeto, como diria Nietzsche, o mais forte dos afetos".
(Alteridade: o mundo individual só é possível a partir do contraste com o mundo do outro. É colocar-se no lugar do outro.Na medida em que culturas diferentes praticam a alteridade, é possível estabelecer o diálogo, sem que uma cultura se sobreponha à outra. Alteridade seria então uma vontade de entendimento, a busca do diálogo, a busca de uma relação pacífica).
"Inadequado é aquele que se sente sufocar. Para ele o mundo é feito de paredes que se aproximam lentamente na direção de um corpo a ser esmagado". Nesse sentido, "o pânico é um extremo de inadequação".
"O inadequado é, em geral, um pensador, [...] já que conhece o sentido do desconforto diante das coisas".
Vergonha
"Sente vergonha aquele que ainda deseja ser sincero", dado que na sociedade do espetáculo as pessoas meio que desistiram da sinceridade.
"O sentimento de vergonha é sinal de que algo ainda importa".
Por outro lado, "o adequado pode, no entanto, estar neste mundo como um robô, não sentindo mais nada. Inadequado é quem não consegue virar robô, logo se questiona, sofre, e ressente. Em geral, sente vergonha. E, neste caso, prefere ficar sozinho".
Política da solidão
"Os sentimentos humanos são nebulosos e confusos, mas não se expressam senão por meio de atos desesperados que falam por si mesmos".
"Paradoxo de Bacamarte: o anormal é normal, o normal é anormal".
Desse modo, "viver em comunidade não faz sentido para todo mundo".
Anestesia
"Podemos perguntar como alguém se torna anestesiado? [...] O anestesiado não consegue sentir-se adequado ou inadequado", uma vez que o que sente é o vazio da emoção.
Ostentação
"Ostentação é o principal tipo de ação espetacular. É o próprio cerne da espetaculização." É o tempo do culto religioso às marcas.
"Mais do que uma lei, o consumo é uma crença que atinge todas as classes sociais para devorar cada um de seus adeptos". Desde a fascinação por roupas, carros e toda espécie de coisas.
Como resistir à servidão voluntária? "A saída é a arte, a poesia, a negação ativa contra o uso e o consumo de marcas. A saída é, certamente, a ética contra o espírito do capitalismo".
"O simples dizer 'não, obrigado', torna-se a verdade profanação cotidiana".
Mania de carrão, escravidão estética, morte da cidade
A marca e o tipo de carro faz parte do teatro social. "Diz-me com que carro andas e te direi que és".
"Inadequado é aquele que anda a pé".
"O poder do dinheiro age em detrimento da cidadania", uma vez que, sob ponto de vista da publicidade, "ser feliz é ostentar".
Inação
"Negar-se a fazer é a inação verdadeira contra a imposição da ação num mundo que hipervaloriza a prática vazia".
"A inação de não ver televisão, não ter carro, não comer carne, não andar com roupas da moda, a recusa de hábitos que configuram o quadro geral da ação falsa, 'da pseudoatividade', é a verdadeira ação".
"Na medida em que não agimos, podemos estar muitas vezes fazendo algo sumamente importante do ponto de vista ético". "[... renunciamos a fazer o que o sistema nos pede".
Ou seja, de acordo com Tiburi, de certa forma, a inação pode ser a verdadeira ação. E o caminho é se perguntar sobre o significado de cada ação: conformismo ou resistência.
3. Como viver junto?
"Como não podemos escolher com quem conviver, a convivência se torna muitas vezes uma questão de sobrevivência. Estamos de fato condenados uns aos outros".
No sentido de "condenados uns aos outros", Tiburi complementa que mesmo "na irrelação, quando rompo com o outro, quando o apago, mesmo assim ele permanece, ainda que na forma de algo absurdo, de algo que me escapa".
"A ética é constantemente tratada como teoria da ação", mas seu significado pode ser ampliado para o que Tiburi denomina de metateoria.
Ética como anacronismo
Sobre a ética e seu caráter intempestivo, anacrônico, extemporâneo.
"Ethos é a vida simplesmente vivida".
"Não podemos simplesmente conhecer o cotidiano, pois estamos dentro dele".
A miséria do dia a dia não é nada comparada com a exuberância da transcendência. Reflexões a partir de Nietzche.
Vida cotidiana como questão
Calcificar. "Aquilo que fica de fora da história": o cotidiano, a vida sem glamour.
Banalidade
Frase importante para meus estudos a respeito da linguagem:
"Toda palavra guarda alguma verdade histórica e é por isso que a etimologia pode nos ajudar a pensar".
Feminicídio ou o ódio ao outro como questão de gênero
"O poder total na mãos dos homens apenas porque são homens", a tal lógica do patriarcado.
"O ódio contra trevestis e homossexuais que faz parte do fascismo cotidiano é outro modo de realização da banalidade do mal ligada à questão de gênero".
Vida ornamental
A vida vivida sobre o prisma das aparências, da ostentação, é o que Tiburi define como vida ornamental.
"A sociedade da aparência demanda o que o mercado define como certo". Em outros termos, viver submetido à vida ornamental é considerar o deus mercado como a medida de todas as coisas. Aliás, sobre esse tema devo desenvolver algumas ideias em um futuro texto. O debate filosófico, além do imediatismo, visa abrir janelas para um mundo além do culto das aparências. Como diria Tiburi, esse debate precisa ser capaz de fazer surgir uma utopia ética, uma vez que já não há mais espaço para utopias.
A vida ornamental "é a vida reduzida à pura estética, à aparência da vida"
Continuando...
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